Quando o PIX foi lançado, muita gente enxergou apenas um novo meio de pagamento. Poucos perceberam que ele mudaria a forma como pessoas e empresas movimentam dinheiro no Brasil.
Agora, acredito que estamos diante de uma transformação semelhante. O nome da vez é Split Payment.
Embora esteja sendo discutido principalmente dentro do contexto da Reforma Tributária, seus impactos vão muito além da área fiscal. Para bancos, cooperativas de crédito, fintechs e empresas de tecnologia financeira, essa pode ser uma das maiores mudanças operacionais da próxima década.
O que muda, na prática?
Hoje, quando uma empresa recebe um pagamento via PIX, cartão ou outro meio eletrônico, o valor integral é creditado em sua conta. Posteriormente, ela realiza o recolhimento dos tributos.
Com o Split Payment, a lógica muda. No momento da liquidação da transação, a instituição financeira poderá separar automaticamente a parcela correspondente aos tributos (CBS e IBS), direcionando-a ao governo e creditando apenas o valor líquido ao recebedor.
Em outras palavras, o imposto deixa de passar pelo caixa da empresa. Pode parecer uma mudança simples. Mas ela altera completamente a forma como pagamentos são processados.
O protagonismo das instituições financeiras
Na minha opinião, este é o aspecto mais relevante. As instituições financeiras deixam de ser apenas intermediárias da liquidação financeira e passam a desempenhar um papel fundamental na operacionalização do novo modelo tributário.
Isso exigirá investimentos em:
plataformas de pagamentos;
PIX e outros meios eletrônicos;
APIs e integrações com a administração tributária;
conciliação financeira;
auditoria e rastreabilidade;
segurança e alta disponibilidade.
Não é apenas uma evolução tecnológica.
É uma transformação operacional.
O desafio não será apenas de TI
Assim como aconteceu com o Open Finance e com o próprio PIX, essa mudança não será responsabilidade exclusiva das equipes de tecnologia.
Produtos, Operações, Fiscal, Compliance, Jurídico, Arquitetura e Negócios precisarão trabalhar de forma integrada.
Os maiores desafios provavelmente estarão justamente nessa coordenação entre áreas.
O cronograma já começou
Embora a implantação ocorra de forma gradual, a preparação precisa começar agora.
O cronograma prevê:
2026: adaptação e testes dos sistemas;
2027: início da CBS e das primeiras operações de Split Payment;
2029–2032: expansão gradual do modelo;
2033: implementação completa da Reforma Tributária.
Na prática, isso significa que muitas instituições já estão iniciando estudos de arquitetura, avaliação de impactos e planejamento de projetos.
Minha visão
O Split Payment não é apenas uma mudança tributária. É uma mudança na infraestrutura de pagamentos do país.
Assim como o PIX transformou a experiência de pagamento, o Split Payment tem potencial para transformar a forma como impostos são arrecadados e como as instituições financeiras processam transações.
Talvez ele não tenha o mesmo impacto para o consumidor final. Mas, para quem trabalha com tecnologia, meios de pagamento e transformação digital, vale acompanhar esse tema desde já.
Tenho a impressão de que, daqui a alguns anos, vamos olhar para trás e perceber que essa transformação foi tão importante quanto outras grandes evoluções do sistema financeiro brasileiro.
E você, sua empresa já começou a avaliar os impactos do Split Payment?
Artigo produzido por Márcia Scheid, Gerente de Projetos na Lighthouse.
